sexta-feira, 4 de março de 2011

Era uma vez...


Pediram-me que escrevesse sobre uma palavra e eu decidi escrever sobre ti. Dentro dos mais variados significados que possas assumir, num deles em particular és de tal ordem módico que mesmo estando lá parece que apenas passamos por ti e não te olhamos de facto. Mas essa modéstia que te caracteriza apenas determina o teu lado mais primário, a tua aparência física, se assim lhe podemos chamar. És delicado. A tua suavidade de forma é tão evidente que, apesar de já te teres afirmado por cinco vezes neste parágrafo, não deixas de estar associado a uma discrição indelével.

Mas a tua essência é tão mais abrangente e dominante. Tu, que podes introduzir algo ou alguém. Tu, que consegues criar admiração. Tu, com a tua entoação, que és capaz de fazer reflectir. Falo de ti, ponto.  Foi o latim que te ergueu, a partir da palavra punctum, e que apenas te atribuía um sentido: picada, buraco feito por uma picada. Hoje comportas uma multiplicidade de significados e eu decidi começar por aquele que determina o fim e o começo das frases e pelo qual Saramago não reúne grande estima.

É agora! Agora é que é. Chegou a altura em que tudo se decide e tu assumes um papel de destaque. Consegues ser mais mediático do que os próprios jogadores que estão no court. As atenções estão todas centradas em ti, na expectativa que és capaz de gerar antes mesmo de te consumares. O ponto decisivo que “mata” o set e o jogo e dá a vitória a um de dois lados. És atingível, mas a acessibilidade à tua conquista pressupõe uma grande determinação de quem te persegue. Não te fazes vulgar, mesmo tendo presente que é a tua multiplicação que dá sentido à acção.

És silêncio, mesmo que momentâneo, quando nos fazes descansar no meio de uma estória empolgante que aos poucos parece tomar a nossa respiração. Determinas, pela tua imposição escrita ou oral, que a discussão deixa de progredir e cala-se. Acabas sempre por ser chamado às dramáticas discussões conjugais: “e ponto final”. És imperativo. Tens um carácter finito e tudo o que possa ser abrangido pela expressão “nunca mais”, como pode ser o caso, acaba por originar um sentimento de perda e de ausência de controlo que quase nunca conseguimos exprimir em palavras.

Mas, de repente, consegues transformar-te e assumes a faceta conciliatória. És a harmonia perfeita onde duas linhas se encontram. Elas podem adoptar as mais variadas formas, serem irregulares, mas perante ti são um só. Forças diferentes que se unificam na tua plenitude. E desta harmonia seguimos para uma nova aventura. Porque tu tens esta capacidade de ser rei e senhor do caminho a seguir: o ponto de partida. Mas porque a tua estória já vai longa, dado eu ter duas páginas para te explorar, partilho contigo as minhas memórias preciosas.

Ainda hoje consigo sentir o cheiro da lareira. Faz frio e a sensação é muito boa. À mercê do “petromax”, os adultos fazem brindes de festa e eu, pertencente ao grupo das crianças, pergunto as horas de dez em dez minutos. Mesmo ali em frente, numa das esquinas da sala, estão os presentes aos pés da árvore decorada a preceito.  É meia noite e estamos no ponto mais alto da ilha. Ano após ano, foste sempre o escolhido: o ponto mais alto.

“Desta vez é que é, Avó!” Esta era a frase dita por mim e que introduzia mais uma partida. O jogo de cartas preferido da minha Avó: a Bisca. Chega o ponto da situação, que o mesmo é dizer fazer contas, e era só somar: ponto atrás de ponto, atrás de ponto...e o jogo terminava com a gargalhada singular.

Sempre dei comigo a pensar: “como irei eu um dia conseguir saber fazer isto tudo”? Pois se a minha Avó e a minha Mãe o sabiam, partia do princípio de que essa teria de ser uma qualidade minha. Ponto de tricô, ponto de croché, ponto cruz. No entanto, as coisas mudaram ao ponto de estas habilidades deixarem de ser essenciais e confesso: a minha puerícia teria agradecido saber disto mais cedo.

E como poderia eu esquecer-te, se todas as manhãs me esperavas? A cada nascer do sol palavras diferentes. De dia para dia as frases ganharam sempre outra vida. Não eras protagonista, mas sempre que me faltavas, o desenrolar da peça era outro. Como poderia eu esquecer-te, teleponto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário