Eu não tenho conhecimento de que alguma vez, nos últimos 70 anos, tenha existido alguma geração "à vontadinha". A minha avó conta que só comia carne ou peixe quem era rico e o meu pai relembra-me sempre que no tempo dele as pessoas pediam pão porta à porta.
Parece que os Deolinda terão dado o mote para, de repente, a contestação virar algo tão importante como respirar e para a transfiguração de uma geração rasca. Diz a letra em tom melódico que “para ser escravo é preciso estudar”, mas é a mesma letra que nos diz que “sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta situação”. Se uma frase, um texto, um poema ou uma declaração podem ter interpretações diversas, porque não pode esta letra do “grupo da moda” ser interpretada de uma outra forma?
Amanhã acontece a manifestação da Geração À Rasca, na Avenida da Liberdade, em contestação à actual situação do País e pela demissão da classe política. Mas a contestação deverá ser sinónimo de anarquia? Devem os portugueses ambicionar um regime apartidário? Haverá, certamente, outras formas de entoar a insatisfação social. Mas transfigurada que está esta geração, que passou a ser apelidada de “à rasca”, existem razões extra políticas que podem de alguma forma dar vida ao novo termo. Os actores principais da geração à rasca são os mesmos da geração rasca que quiseram comprar dois carros, em vez de um; os que compraram casa recorrendo ao crédito bancário com um valor muito superior ao valor do imóvel; os que fizeram três grandes viagens por ano, em vez de pensarem no PPR, e não faltariam exemplos de tomadas de decisão que não tiveram em conta a receita para aplicar a despesa, que no fundo, é certo, terá sido o mesmo que o Estado fez. Mas já diz o provérbio, “faz o que eu digo...”.
Os ordenados são baixos, são. Acabaram os pagamentos de horas extra, acabaram. Há mais precariedade laboral, há. Mas por isso é que António variações já dizia: “Quando a cabeça não tem juízo e tu não sabes mais do que é preciso, o corpo é que paga”.
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